Já passava das
três da manhã quando acordei.
A janela
semiaberta e o ventilador ligado ao máximo não eram suficientes para refrescar
o quarto. A roupa de cama, agora encharcada pelo suor, dificultava ainda mais o
sono, pois aquela madrugada parecia ser a mais quente que eu já havia visto. Me
levantei, pois a sede era enorme, e acreditava que uns bons copos de água me
ajudariam a pegar no sono novamente. Ao chegar na cozinha, me decepcionei ao
ver que não saía sequer uma gota d’água do filtro, pois em minha casa, faço uso
destes purificadores que são ligados diretamente ao encanamento. Me virei em
direção à geladeira, e mais uma vez decepção, não havia nenhuma garrafa com
água. Logo, abri a torneira ligada à caixa d’água e vi que uma pequena linha de água
descia. Enchi o copo, e comecei a beber, mas a alta temperatura da água não me
permitiu mais do que dois pequenos goles. Não sabia se aquela água quente
estava matando ou aumentando mais a minha sede. Voltei para cama decepcionado,
e com ainda mais sede. Deitei novamente
com duas novas, porém, tristes certezas: A primeira era que não conseguiria dormir
aquele resto de madrugada e a segunda era que vinha pela frente mais um dia
seco e quente.
A situação
atual é realmente preocupante. Nos meus vinte e nove anos de vida, não me
lembro de ver situação semelhante a esta.
A falta d’água
não é um problema apenas em nossa cidade, mas sim, um problema nacional.
Situação essa que já vinha sendo prevista há muito tempo, vem se tornando real
a cada dia. Racionamentos de água e energia vem acontecendo em vários lugares,
mostrando que é chegado o dia em que nosso bem mais precioso está acabando.
De nada
adianta tentar encontrar culpados pontuais, indicar nomes, incriminar
autoridades ou levantar suspeitos, quando de fato, sabemos quem são os
principais responsáveis: nós mesmos.
Somos culpados
por achar que a água é interminável. Culpados por ignorar campanhas de economia
de água. Culpados por não acreditar que viveríamos dias em que a água acabaria.
Culpados por não saber usar com consciência a água que chega até nossas casas.
Culpados por não alertar o amigo ou o vizinho ao vê-lo desperdiçando a água da
torneira.
O que
precisamos agora é correr atrás do tempo perdido. Agora sim, cobrar de nossas
autoridades punições aqueles que extrapolarem em relação ao uso da água.
Denunciar, alertar, aconselhar, para que esse problema não se torne ainda pior
com o passar do tempo. Já podemos sentir
as consequências da falta d’água, pois a economia de nossa cidade já vem sendo
atingida, por exemplo, pelo aumento de funcionários dispensados de nossas usinas, que são um
dos maiores empregadores de nossa cidade, devido à falta de chuva.
É triste ao
caminhar pela cidade e ver calçadas sendo lavadas, janelas, portões, telhados e
até mesmo ruas, onde aquela água poderia estar sendo usada para coisas
realmente úteis. Ocorre que muitos pagam pela imprudência de poucos.
Sejamos
vigilantes de nossa cidade. Lutemos por esse bem que tanto necessitamos, ou logo
ficaremos sem ele. E claro, vamos torcer e rezar para chover, pois em horas
como essas, talvez a fé seja uma das armas mais fortes em tempos de seca.